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sábado, 31 de outubro de 2009

Moradora das areias...


Moradora das areias...



Sou moradora das areias,

de altas espumas: os navios

passam pelas minhas janelas

como o sangue nas minhas veias,

como os peixinhos nos rios...



Não têm velas e têm velas;

e o mar tem e não tem sereias;

e eu navego e estou parada,

vejo mundos e estou cega,

porque isto é mal de família,

ser de areia, de água, de ilha...

E até sem barco se navega

quem para o mar for fadada.



Deus te proteja, Cecília,

que tudo é mar - e mais nada.



Cecília Meireles

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

DE QUE SÃO FEITOS OS DIAS?


"DE QUE SÃO FEITOS OS DIAS?"



De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...




CECÍLIA MEIRELES

UMA FLOR VOAVA


UMA FLOR VOAVA

Uma flor voava.
Por mais que pareça impossível,
uma flor voava.
Uma flor voava ia voando,
e levava ao lado o seu botão fechado.
Parecia uma jovem graciosa
com sua bolsinha no braço.
Voava a flor amarela,
no ar indefinido.

E nuns troncos imensos,
muito grossos, muito altos,
nuns troncos cheios de crepúsculo,
como colunas do céu,
sentinelas da vida,
nuns troncos muito escuros
iam pousando enormes borboletas flácidas,a
amarelas e pretas,
que decerto pousavam para sempre,
sem rumo nem poder,
amarelas e pretas, muito sinistras,
muito flácidas,muito grandes.

E a pequena flor amarela voava,
Solta, levíssima,
por um rumo secreto de alma evadida.



Cecília Meireles

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

CANÇÃO DO CAMINHO



CANÇÃO DO CAMINHO


"Por aqui vou sem programa,
sem rumo, sem nenhum itinerário.
O destino de quem ama
é vário, como o trajeto do fumo.

Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
-Se fosse, em vez da canção,
teu braço!

Ah, mas logo ali adiante
- tão perto! -acaba-se a
terra bela.Para este
pequeno instante, decerto,
é melhor ir só com ela.

(Isto são coisas que digo,
que invento,para achar a
vida boa...A canção que
vai comigo é a forma de
esquecimento do sonho,
sonhado à toa...)"


(Cecília Meireles)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A flor e o ar


A flor e o ar

A flor que atiraste agora,
quisera trazê-la ao peito;
mas não há tempo nem jeito...
Adeus, que me vou embora.

Sou dançarina do arame,
não tenho mão para flor:
pergunto, ao pensar no amor,
como é possível que se ame.

Arame e seda, percorro
o fio do tempo liso.
E nem sei do que preciso,
de tão depressa que morro.

Neste destino a que vim,
tudo é longe, tudo é alheio.
Pulsa o coração no meio
só para marcar o fim.

¬ Cecília Meireles ¬